ALEGRÍA, um formoso grito delinquente
Para compensar o tempo perdido, resolvi escrever dois textos de uma vez pra retomar o blog. Tive uma vida cultural agitada no último mês e gostaria de repartir alguns pareceres. O primeiro deles, sobre o espetáculo Alegría, do Cirque du Soleil.
Não achei que fosse ouvir reclamações do show. Para mim, era certo que os vira-latas da alta sociedade gaúcha iriam babar ovo dos canadenses (australianos, mongóis, norte-americanos, dinamarqueses, brasileiros até). O certo foi que ouvi reclamações. De forma alguma isto é ruim. Como diria o outro, “toda unanimidade é burra”. Mas burro foi o motivo que me justificaram os desgostos. Burro, ingnóbil, ignorante…
A corrente geral (para esses) era que a “expectativa foi frustrada”. Pelo quê? Até acho que sei. A idéia que se instituiu no Cirque é de uma trupe infalível, pra dizer o mínimo. Que realiza o impossível, no máximo. Então, se um grupo de seis malabaristas faz manobras a 15 metros do chão, frustra quem esperava que eles fizessem a pelo menos 18. Ou se o homem-voador realiza dois mortais apioado a um elástico, frustra quem esperava que ele desse três twist carpados e chupasse um pirulito enquanto acendia um cigarro.
Alegría foi um dos primeiros espetáculos criados pelo Cirque du Soleil. Desde os primórdios do grupo, nos idos anos 1980, a pdera-fundamental foi criar obras grandiosas, espetáculos teatrais com artistas circenses e de rua e com música, cenário e fantasias originais. Resuma nisso: uma fantasia original.
Se atentem ao fato de que hoje eles são instituídos como o maior espetáculo de circo do mundo, o que em 1984 ainda não era. Desde então, eles anunciam a organização do mundo contemporâneo. Na geopolítica, tentam nos situar numa época pós-Muro de Berlim, com a bipolarização dos poderes sendo substituída pela hibridização de culturas. Isso começou na década de 1990 e eclodiu em 2001. O Cirque du Soleil já fazia isso anos antes, misturando artistas de todos os continentes em estilos bem peculiares.
Além disso, nunca foi objetivo dos grandes mestres da história da Arte realizar o impossível. O impossível é consequência da expressão do talento ao retratar o seu tempo. O Cirque mostra o absurdo para puxar o público para a realidade. E os seus espetáculos, como o Alegría, é cheio de realidade. O mote do espetáculo (para quem se interessa na história do espetáculo) é um reinado subversivo, onde o bobo-da-corte é rei, os monarcas são palhaços, os velhos são jovens de novo… Por um unstante, eles invertem a ordem de tudo e nos chamam para uma nova percepção. Viva a aventura, viva seus sonhos, viva o espetáculo!
Mas de que adianta criar tudo isso e transmitir apenas para quem pode pagar 100, 200 ou 300 reais por duas horas? Os criadores justificam isso logo de cara. Vou transcrever o manifesto deles aqui:
“NÃO TEMOS NENHUMA ILUSÃO. As crianças de rua não verão Alegría. Rir continua sendo um luxo que não está ao alcance delas. Esta noite, nossos gritos de alegria se transformarão em gritos de raiva pelos milhões de jovens corações que voltarão a congelar nos meios-fios de nossa boa vontade. Que Alegría se transforme num grito de união para todos aqueles entre nós que continuam sem voz.”
Agora, se possível, reveja Alegría. Ou outro circo, ou outro espetáculo. Alce a cultura ao mesmo patamar que a educação e a política. Dê o circo ao povo, mas como o pão que possa alimentá-los de esperança.
SE VOCÊ NÃO TEM VOZ, GRITE. SE VOCÊ NÃO TEM PERNAS, CORRA. SE VOCÊ NÃO TEM ESPERANÇA, INVENTE.
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