Futebol é a arte que evolui para trás

Um exercício milenar para ativar as ideias: participar de um evento que normalmente tu não participarias. Ontem fui ao espetáculo de dança contemporânea Dar Carne à Memória I, baseado na obra de Eva Schul. Eram três apresentações, cada uma com suas características próprias.

A primeira foi Um Berro Gaúcho, com música original composta por Toneco e Carlinhos Hatlieb e com coreografia baseada nas tradições gaúchas. A segunda, Hall of Mirrors, dava carne à obra homônima do (essencial) grupo alemão Kraftwerk. E a terceira, Catch, discutia a questão dos limites do corpo e do equilíbrio com trilha de Celau Moreira.

Júlia Ludke, Juliana Rutkowski, Luiza Moraes e Lícia Arosteguy

Agora, o que diabos isso tem a ver com o futebol?

Acontece que a dança, como a música e as artes plásticas, passou por diversos processos de rompimento e evolução num fator essencial: a liberdade. No futebol, estes processos foram de rompimento e regressão da liberdade. A dança contemporânea admite movimentos que eram negados no período clássico, por exemplo, devido a um excesso de disciplina. Para não ficarem presos a estes limites, os bailarinos passaram a sublimar estas regras para dar mais liberdade ao corpo. No futebol, mais uma vez, o movimento e o corpo estão cada vez mais limitados a regras táticas e físicas.

Na primeira parte, me chamou a atenção uma cena de Um Berro. Em meio a vários grupos dispersos no palco, um casal contracenava no fundo fazendo algo que remetia ao balê clássico. A diferença foi que, quando ela laçou o corpo em direção a ele, ele, ao invés de agarrá-la, empurrou-a de volta à posição inicial e retomaram a performance. Meu conhecimento de dança contemporânea para por aqui, mas me impressionou ver o nível de detalhes da coreografia de Eva Schul.

A relação com a arte da bola pode ser feita rapidamente. Comparem a quantidade de esquemas táticos que temos hoje com os que tínhamos há menos de 40 anos atrás. Ou então reparem no desenvolvimento físico de certos atletas e a rapidez com que seus corpos se desenvolvem. A evolução, neste caso, também existe. Mas para outra finalidade: o resultado.

Por isso, já não posso considerar futebol uma arte. Pois ela exige competitividade. Ou, se é arte como para muitos, é a arte do aprisionamento – ao menos em alto nível. A arte está na rua, de onde a dança, a música e as artes plásticas evoluíram. E o futebol, se quer evoluir, deve se basear nela.

Obs.: não falei nada do Kraftwerk, né!? Pois se tu acreditas em qualquer música feita depois de meados da década de 1970, deve resgatar algum álbum e ouvi-los. Sem eles, música eletrônica ou hip-hop, The Killers ou Lady Gaga não existiriam.


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