Aqui, hoje.

Eu não estou dizendo que estou sofrendo. Eu não estou dizendo que não sei deixar ir. Não estou mesmo. Na verdade, não queria dizer nada. Queria apenas escutar. Ouvir que, o que eu fiz, ainda faz sentido. E, mais ainda, que o que sinto ainda é possível sentir.

Sabe por que eu digo isto? Porque nada mudou. Desde quando nasci, aprendi a amar qualquer pessoa da mesma forma. E não estou colocando aqui o que eu fiz ou deixei de fazer por alguém. Quero ir além. Estou dizendo, agora sim, sobre tudo que não disse. Vou deixar as besteiras de lado e responder diretamente.

Em qualquer relação, existem coisas que a gente faz pelo outro, certo? A gente têm várias opções em cada situação. E a gente escolhe uma delas. Só que, ao mesmo tempo em que construímos nossa vida de acodo com o caminho que vamos escolhendo, existem outras inúmeras vidas com caminhos que optamos por não pegar. Como se fosse num labirinto. Escolhemos uma passagem. Se for boa, ela dará lugar a outra passagem, e assim por diante. Senão, ela chega no fim do caminho e só temos duas opções: parar por ali ou voltar e tentar de novo.

Desta forma, podemos corrigir um caminho que tenhamos pegado errado. Talvez este caminho, certo ou errado, tenha sido recomendado por alguém. Aí, quem sabe?, a gente possa repensar como aquelas pessoas agiram sobre nós.

Só que, neste caso, entra uma definição tão certa quanto pegar fogo no oceano: a de certo e errado. Mesmo que alguns caminhos tenham sido diferentes e você já não seja mais o mesmo depois de tanto tempo percorrendo ele, não quer dizer que não tenha acertado até ali. Às vezes, na ânsia de chegar em algum lugar, não percebemos o quanto é bom estar ali apenas tentando, sem chegar em lugar algum. Talvez até já tenhamos chegado no lugar certo e não tenhamos percebido.

Em “Here Today”, de 1982, Paul escreveu o que gostaria de ter dito a John. Só que, ali, o parceiro já havia sido assassinado. Diz assim:

“E se eu dissesse que eu te conheço bem,

Qual seria a sua resposta?

Bem, te conhecendo como conheço, você provavelmente iria rir e diria que somos mundos à parte.

Mas, para mim, eu ainda lembro como era antes. E eu não estou mais segurando as lágrimas.

Sobre a noite em que choramos, porque não havia motivo para segurar, eu nunca entendi nada. Mas você estava sempre lá com um sorriso.

E se eu dissesse que eu realmente te amei e que te agradeço por você ter estado comigo?

Se você estivesse aqui hoje…”

O autor, Paul McCartney, o cara mais fantástico do século, não propõe uma volta no tempo. Aliás, ele não se regula de acordo com tempo e com espaço. Ele não quer voltar ou trazer o amigo de volta. Ele quer saber que tudo aquilo que eles tiveram teve sentido. Queria que houvesse um pouco mais de compreensão e que eles pudessem ter tentado um pouco mais. Porque aquilo que eles viveram não se compara com nada que ele teve ou teria.

O autor (eu, no caso) agora, não quero voltar. Não quero ir aonde não consiga. Só quero continuar tentando dar sentido ao que estou sentindo. Pular umas barreiras e encontrar um sentido – que agora não existe mais. Porque isso não se encontra duas vezes em uma mesma vida. Eu já encontrei o meu e quero ter a chance de poder recuperar.


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