Por mais Bellas e menos Annas

Estava assistindo Notting Hill em pedaços pela enésima vez. Eu não costumo ver um filme segmentado por cenas. Afinal, é um filme, não uma série. Mas, em alguns casos, é necessário até mesmo para encontrarmos outros significados neles. Quem sabe até gostar do que não gostamos na primeira vez.

Digressões à parte, a cena que revi foi a da divisão do último brownie. Estavam na mesa William, seus amigos e Anna. Para entender melhor, assistam à cena aqui.

Resumidamente, eles propuseram dar o bolinho que sobrou para quem tivesse a história mais triste para contar. A garota feia que não encantava ninguém, o cara que estava envelhecendo e engordando sozinho… e Anna, a atriz que vivia da futilidade, das plásticas que a faziam ser quem era e que, com o tempo, também a fariam ser esquecida.

Claro que ninguém caiu naquilo. Aquilo não era triste, aquilo não a fazia se sentir rejeitada. Mas era. Ainda mais que, ao lado dela, estava Bella, personagem de Gina McKee. Ela era uma mulher madura, bonita e interessante, que estava em uma cadeira de rodas devido a um acidente e que não podia engravidar. Aqui não vale analisar a atuação. Nestes filmes, o que ficam são as mensagens e as personas encarnadas por cada ator.

O que fica de Bella é o tempo. Ela poderia ter tido filhos antes e, não fosse o acaso, estar brincando com eles ao redor da mesa. O que era pra ser triste é mostrado de forma otimista e, acima de tudo, realista. Naquele momento, ela não estava onde planejou nem fazendo o que gostaria. Mas ali estava ela, vivendo como deveria. Junto dela, o marido, Max. Ele também não escolheu aquilo, embora não tenha deixado de optar estar com a esposa.

Bella não era Anna, mas, na cena toda, Anna gostaria de ser Bella. Mais do que ser bonita, ela gostaria que alguém lhe dissesse que ela era bonita. Como Max tratava Bella. E Max, mais sensacional ainda, se deu conta disso. Tanto que, mais adiante no filme, a simplicidade dos dois é exaltada. Enquanto William ajuda Anna a lidar com o escândalo sexual no qual estava envolvida, Max e Bella seguiam a pacata vida à dois. O marido carregava a esposa no colo todos as noites antes de dormir. William se deu conta daquilo e encarou a nova forma de viver. Ali entrou a liberdade dele.

Por mais que gostasse de Anna, de nada adiantaria se ele não pudesse dizer isto a ela. E existem milhares de formas de se dizer isso, apesar de grande parte delas não ser tão fácil de se entender. Como o carregar no colo, abrir mão de alguma coisa ou, simplesmente, dizer.Cena de Notting Hill, com William, Bella e Max

Na maioria das vezes, não importa achar alguém bonito e interessante. Se deixar levar por isso é futilidade na mesma medida. Humildade e simplicidade é saber pegar a esposa no colo e dizer o quanto ela é linda. É conseguir dizer “eu te amo”. Aliás, no frigir dos ovos, dizer eu te amo é muito mais libertador e completo do que ouvir.

Por um lugar mais Notting Hill.


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