A Copa dos Sonhos

Em toda Copa do Mundo, praticamente um novo mundo é construído. Na África do Sul, por exemplo, a Justiça teve que reorganizar o sistema penal para receber turistas. Sim, até porque mais fácil cobrar fiança por um crime do que gastar milhões para evita-lo. Além disso, estádios, hoteis, meios de transporte tiveram de ser construídos/remodelados/adaptados. Mais alguns milhões vindo da iniciativa privada, dos governos, da FIFA, e por aí afora.

Só que um outro mundo também é construído… no imaginário. Alguns castelos de sonhos e valores que não estão em edificações ou marcas. Essas construções é que devemos chamar de Copa do Mundo.

Quando Luis Suárez coloca a mão na bola impedindo o gol de Gana nos acréscimos do segundo tempo da prorrogação, por exemplo. Não é a mão dele que espalma a Jabulani. É a mão de José Artigas, empunhando sua espada, impedindo que a identidade do seu povo fosse maculada, destruída, dizimada. É uma atitude de espontaneidade que coloca a honra à frente do profissionalismo. Esta foi a imagem da Copa, mas não foi a única. Aliás, para quem não acredita no Olimpo do Futebol, os deuses fizeram questão de deixar algumas marcas.

Hera, a deusa dos deuses, guiou Iker Casillas. Antes da Copa, ele teve a titularidade contestada por atuações fracas em amistosos. Começou a competição e ele foi um dos responsáveis pela derrota na estreia, contra a Suiça. Até a presença da esposa, repórter de uma emissora de tv, foi questionada. Entretanto, Hera fez questão de guardar o gol dele. Selou-o com os pés, as mãos, com o olhar. E debruçou-o languidamente no colo da amada. Hoje, Casillas é um novo Deus do Futebol.

Atena, a deusa da Justiça, carregou toda a escola espanhola. Colocou, em 2010, uma nova seleção no rol das melhores do mundo. Com méritos, o melhor time do mundo, que possui os melhores jogadores do mundo, pode ser considerado hoje a maior seleção do mundo. O que escapou em 1954 com a Hungria e chegou bem perto em 1974 com a Holanda. O melhor futebol do mundo encontra o time mais vencedor do mundo.

E o que dizer da luz que guiou o país por mais de um mês? Obra de Artemis e Apolo? No país que já dividiu a luz das trevas, o negro do branco, ninguém brilhou mais do que a simplicidade de Diego Forlán. A humildade dele e dos uruguaios deram uma demonstração de que técnica e raça são complementares, não opostos.

Que deuses me faltam? Afrodite? Dionísio? Puerta? Jarque? Eles não estavam lá, mas estavam. Olhem no replay do gol derradeiro desta Copa do Mundo. Dani Jarque contém Van Der Vaart para que ele não chegue a tempo de cortar o chute cruzado de Iniesta. É ele quem empurra o amigo para o tiro de misericórdia. Foi ele a força que deu pernas para o camisa 6 conseguir, depois de duas horas de jogo, colocar uma estrela na camisa. Uma outra estrela, digamos, porque a dele continua a brilhar.

E Antonio Puerta, que comemorou o título o tempo todo com Sergio Ramos? A ânsia de vencer era tão grande, que ele ergueu o amigo alto demais e este perdeu um gol imperdível. Quando Del Bosque tirou Xabi Alonso e colocou Fàbregas, quem vocês acham que cobriu o setor? Puerta, é claro! Ou vocês acham que o Busquets correu sozinho? Ou que Piqué subia ao ataque o tempo todo sem ter a segurança de que o amigo espanhol estaria ali? Ou ainda que Puyol cortava todo lançamento sem ter a orientação do lado esquerdo, onde tantas vezes Puerta esteve?

Entre amigos e orgulhos, quero deixar aqui a minha admiração pelo meu colega Rafael Diverio. Longe do auxílio de supercâmeras e estruturas gigantescas, ele foi apenas com a sua paixão pelo futebol sozinho à África do Sul. Sozinho, não. Foi com o apoio de centenas de amigos, da admiração de vários pais e com o orgulho de vários irmãos. Considero ele um dos meus e, talvez, minha maior influência na paixão pelo esporte. Se não foi ele quem fez brotar em mim esta paixão pelo futebol, com certeza é o exemplo que eu busco seguir.

Por isso digo: o futebol não tem cor, não tem dono, não tem marca. O futebol não tem preço. Futebol é a cumplicidade dos amigos ali de cima, da determinação do homem aqui ao lado, da negação de limites do meu amigo de outros tempos. O futebol é isso. O futebol são sonhos. São amigos. São amores. É a lágrima que pede para não ser contida. É o beijo na final do campeonato que pede para não ser interrompido. O futebol são memórias. E que dinheiro algum me tire esta capacidade de acreditar nisto.


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