Absoluto
1909.
Um grupo de revolucionários se opõe a uma regra vigente na época: somente sócios de um clube poderiam representá-lo e, assim, jogar por ele. Menos abastados, sem condições de pagar para atuar no campo, fundaram sua própria agremiação e a denominaram Internacional. Demorou menos de duas décadas para que ele se tornasse um dos maiores do estado. Foi ainda hegemônico por quase uma década, montou um Rolo Compressor, ganhou o Brasil, a América e o mundo. Na segunda metade da primeira década do século vinte e um, não há vencedor maior no lado ocidental do Atlântico.
Absoluto. Assim foi o Inter. Como clube e, na final do Campeonato Mundial de Clubes da FIFA em 2006, como time. Venceu o Barcelona de Ronaldinho, o melhor jogador do mundo na temporada anterior. A maior vitória de um clube sul-americano sobre um europeu na era moderna dos Mundiais. Quiçá uma das maiores na história da competição em todos os tempos. Inigualável. Absoluta. Assim como foram os anos seguintes. Na Recopa, na Sul-Americana, na Libertadores novamente. Absoluto. Inigualável. Assim como no Mundial de 2010. Desta vez, na derrota. Inigualável. Absoluta.
A queda do Colorado ante ao TP Mazembe, na semi-final, por dois a zero, não encontra precedente na história do futebol. Nunca um time tão superior havia perdido para uma equipe tão inferior. Uma equipe que não possui uniforme de treino. Uma equipe da República Democrática do Congo. O Congo belga. O Congo Kinshasa. O Congo mais pobre. O segundo pior país do mundo, atrás apenas do Zimbábue (nação de origem de quatro jogadores do elenco atual dos corvos), de acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU.
Podem me citar outras zebras, como a derrota das seleções campeãs mundiais do ano anterior na Copa do Mundo seguinte – Argentina, que perdeu para Camarões em 1990, e França, que perdeu para Senegal em 2002. Mas a comparação entre forças de seleções não é a mesma. Muitos jogadores das equipes africanas atuavam em grandes ligas da Europa. Roger Milla rodou pelo futebol francês antes da Copa da Itália. Papa Bouba Diop atuava no Lens, também da França. Nenhum jogador congolês está em um dos 16 times que disputam a oitava-de-final da UEFA Champions League. A maioria se concentra na França, em times como Monaco e Ajaccio, na Suíça e na Turquia. Nem eles conseguem colocar a seleção nacional à frente da 130ª posição no ranking atual. Embora já tenha alcançado a 53ª posição em 2003.
O Todo-Poderoso Mazembe foi absoluto. Venceu de forma absoluta. E impôs uma derrota absoluta. Um time de 1939. Trinta anos mais velho que o Inter. Aliás, o clube gaúcho é mais de cinquenta anos mais velho que o país do time que lhe derrotou. Que lhe impôs a derrota acachapante. Que foi absoluto. Assim como a derrota. Absoluta. Outra prova são os resultados dos outros jogos. Na outra chave, a Internazionale, de Milão, se uniu à lógica. Precisou de 12 minutos para vencer o Mazembe. Assim como o Inter venceu o Seongnam Ilhwa, da Coreia do Sul, logo aos 15 minutos.
Somente o tempo irá contestar ou confirmar este texto. Somente o tempo pode ratificar ou retificar o que digo: o Internacional protagonizou o maior vexame da história do futebol mundial em todos os tempos. Esta derrota virou parâmetro para toda derrota. Para efeito de comparação, o Inter perder para o Mazembe é como se o Inter perdesse para o Mazembe. Pode deixar de possuir este título, de maior derrota no futebol. Mas, até lá, este título é do Internacional. Somente o tempo pode relativizar. E o tempo é implacável. Absoluto.
1909…
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- Published:
- dezembro 23, 2010 / 6:18 pm
- Categoria:
- Crônica
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